CIRCUITO AUTOMÓVEL DO ALGARVE 2008
A crónica de Alexandre Guimarães

Depois de ter feito algumas observações sobre o circuito do Algarve quando da inauguração com as corridas de moto, escrevo agora algumas palavras sobre as corridas de automóveis que até agora nunca tinham ocorrido ali.
É que o facto de o meu Lotus só ter aguentado parte dos treinos livres já que o motor não ia alem das 6900 rpm e acabou até por parar de vez e sendo estes com chuva permitiu-me por um lado ajuizar da pista nas condições mais difíceis de aderência e visibilidade e por outro apreciar as corridas, tal como o Ricardo, da parte de fora.
O que constatei é que pista é muito segura com um piso excelente e que se revelou de textura apropriada em chuva permitindo que eu rolasse a velocidades elevadas com pneus slick e me batesse nas travagens com carros equipados com pneus de chuva sem me sentir em perigo.
A pista é ladeada por uma faixa verde de boas proporções que deixa claro aos pilotos onde está o limite sendo que depois, na generalidade das curvas mais rápidas ainda tem uma grande extensão de piso em forma de escapatória e sempre muita gravilha e lá ao fundo várias séries de filas de pneus (10?) isto sem esquecer os tradicionais rails bem colocados a distancia razoável.
Verifiquei também que quando de uma desistência ou acidente é fácil retirar a viatura e remete-la rapidamente à box para reparação através de acessos internos e túneis construídos para o efeito sem ter que passar pela pista excepção para o caso pouco provável!? de um acidente ocorrer na recta da meta como acabou por acontecer.
Também me pareceu que os postos de comissários estão bem colocados o que é fundamental numa pista com tanto relevo e zonas cegas.
As boxes apresentam uma dimensão e qualidade construtiva de primeira linha e a organização conseguiu disponibilizar boxes para todos embora claro com a colaboração dos pilotos que aceitaram ter como nós 6 carros na mesma box.
De futuro há que ter atenção que não é prático distribuir as boxes por categorias uma vez que existem equipes com carros em diferentes categorias e necessitam de os ter reunidos para evitar correrias de técnicos, chefes de equipa e material de um lado para o outro. Com bom senso tudo se resolveu! Aliás pela nossa parte verifiquei que bom sendo foi coisa que não faltou da parte dos comissários residentes do Autódromo do Algarve e mesmo dos homens da segurança. Todos os elementos com quem contactamos foram cordiais, mostraram vontade de cooperar e atitudes típicas de quem naquela zona está acostumado ao Turismo e sabe que os visitantes não devem ser ameaçados ou escorraçados. Assisti inclusivamente a casos de alguns dos pilotos ou equipas reclamarem com palavras duras pequenas coisas como a localização das viaturas de assistência, habituados que estão a serem mal tratados por algumas organizações tipo policial. Não obstante logo a seguir ficaram admirados quando compreenderam que afinal o que os comissários queriam era muito simplesmente compreender algumas situações e ajudar a resolvê-las. Oxalá essa atitude dos elementos algarvios não mude nunca!
Outra “benesse” que foi dada aos pilotos e suas equipes foi o acesso livre a qualquer bancada desde que ostentassem os respectivos “passes” isto para alem de existir uma bancada unicamente destinada aos mesmos e de acesso directo na entrada da recta da meta. Que bonito seria que isto se tivesse passado nas corridas do Porto 2007 onde os pilotos de clássicos foram tratados de forma tão vergonhosa. Já que falei nas corridas do Porto devo dizer que não se ficaram por aqui as atenções aos pilotos. É que foi oferecido a cada piloto no momento do “briefing” um troféu evocativo da prova inaugural das corridas de automóveis naquele circuito. Foi um premio de presença que teria ficado bem atribuir no Porto 2007 fosse a nacionais fosse a estrangeiros e, pelos resultados financeiros publicados, conclui-se que bem o podiam ter feito e caso assim não fosse estou certo que uma qualquer cave de vinhos do Porto estaria disponível para o patrocinar.
Os bares de apoio às diferentes bancadas são no AIA exemplares e os sanitários na traseira de cada um desses edifícios da melhor qualidade e dimensão, há que os manter assim, limpinhos como novos…
E a distribuição de cestos para lixo, latas e embalagens de bebida? Pois havia-as por todo o lado e verifiquei que esse foro estava entregue a reconhecida empresa da especialidade.
A instalação sonora com uma infinidade de postes e altifalantes dava absoluta expressão e clara audibilidade ao desassombrado “speaker” de serviço que mantinha a assistência informada de todos os detalhes.
Verifiquei com gosto que entre a inauguração no fim semana anterior com as motos e agora com os carros, as obras de acesso continuaram a bom ritmo melhorando muito os acessos apesar de alguns outros ainda não estarem prontos o que quando acontecer dotará aquelas instalações de uma situação impar. É de assinalar que nessa semana foram plantadas arvores ao redor de todo o perímetro do circuito servido por uma estrada nova e iluminada. Existe também uma espécie de cadeia de lagos artificiais ao que apurei não só para efeitos visuais mas igualmente para recolha de águas destinadas à rega do complexo.
O que faltou? A mim, sorte com o motor que não passou dos treinos livres e me deixou com enorme vontade de voltar já que adorei o traçado. No acontecimento faltou seguramente a promoção que na semana anterior levou milhares àquele autódromo e se quedou desta vez provavelmente pelas centenas. Faltaram também as simpáticas “marjoretes” que no fim de semana das motos animaram os intervalos entre corridas e o “show dos aviões” ou outro qualquer desde pára-quedistas às voltas do formula 1 estas que só foram no fim mas que se devidamente anunciadas poderiam ter sido um atractivo para muita gente.
Quanto à corrida posso referir que fiquei triste por duas razões: uma foi o de ver um Escort inscrito em H71 a andar muito mais que qualquer outro carro desta categoria, o que deixa antever que quem não tiver Escort “não é bom chefe de família” e que qualquer dia teremos mesmo é um troféu de Escorts mascarado de corrida de clássicos e continuaremos a assistir ao desaparecer, por desincentivo, de tantos outros clássicos que tanta falta fazem nas pistas.
O outro aspecto que me entristeceu foi o do grave acidente (apesar de não ter consequências físicas para os pilotos) entre os dois Escort em plena recta da meta seguramente a mais de 190 Km/hora. É que somos todos mais ou menos competitivos, todos gostamos de ganhar e assim é que é uma corrida mas quem vier correr para os clássicos deverá fazê-lo por amor às glórias do passado e honra-las com boas performances mas também com o seu comportamento em pista. A idade dos pilotos de clássicos contrasta com a dos do PTCC logicamente mais novos e para quem os clássicos não passam naturalmente de carros do passado que a sua juventude não permite que os tenham alguma vez visto circular na rua.
Deixemos pois que a mentalidade agressiva ao extremo e luta por uma boa representação dos seus patrocinadores quede nas provas de PTCC e saibamos acolher no seio dos clássicos pilotos de outra estrutura que querem igualmente ganhar mas imbuídos do desportivismo de outros tempos tal os carros que pilotam. Existem na verdade muitas historias de desportivismo em corridas de automóvel de antigamente que deixo desde já ao Ricardo o repto de ir relatando no nosso Sportscar Portugal. Assim, saibamos os que já cá estamos e os que aderirem a esta categoria, honrar pilotos passados e mecânicas de excepção nas corridas empolgantes que procuramos reproduzir.
Foi um grande fim de semana e usaria um anglicismo para saudar equipas, pilotos e organização : “Well done”
Um abraço do
Alexandre Guimarães

Fotos de Ricardo Grilo